Aliança pela Liberdade - Só o nome (1).p

Aliança na Mídia — Quando Ganhamos o DCE em 2018 e Influenciamos outras Universidades Públicas

*Texto com algumas alterações. Publicado orginalmente pelo OGLOBO/ÉPOCA, podendo ser acessado aqui



Em junho de 2018, a Aliança pela Liberdade, chapa liberal da Universidade de Brasília (UnB), foi eleita para comandar o Diretório Central dos Estudantes (DCE) com uma diferença de 16 pontos percentuais sobre a segunda colocada, a chapa Unidade para Resistir, que reuniu quase todas as tendências esquerdistas do campus. A distância entre as duas chapas foi superior à registrada no segundo turno entre o presidente eleito Jair Bolsonaro (55%) e Fernando Haddad (45%).


Levando em conta que havia ainda outras duas chapas na disputa — o Movimento Reação Universitária, ainda mais à direita, mais próximo do bolsonarismo, e um grupo de militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) —, não resta dúvida de que a Aliança atropelou. O grupo vencedor diz defender um “liberalismo raiz”. Desconfia da conversão tardia do presidente eleito Bolsonaro ao liberalismo e argumenta que não basta desregular o mercado para resolver os problemas do país. “A liberdade é una. Você não pode se dizer liberal na economia e agir como se o que acontece dentro da casa das pessoas fosse uma questão de segurança nacional”, disse a ÉPOCA André Costa, estudante de engenharia elétrica e presidente da Aliança, que já havia ocupado o DCE da UnB entre 2011 e 2016. “Apartidarismo: não respondemos a nenhum partido político, nossos interesses são os interesses dos estudantes. Pragmatismo: conseguir o melhor resultado possível. Pluralidade: ninguém pode ser censurado por pensar diferente”, disse Costa sobre o tripé que sustenta os ideais da chapa.


A Aliança não está só. Nos últimos anos, outros grupos de alunos autointitulados apartidários, pragmáticos e defensores da pluralidade de ideias têm se organizado nas universidades públicas para disputar do controle dos Centros Acadêmicos (CAs) e DCEs. Essas chapas de direita — que reúnem liberais, conservadores e libertários — querem desalojar a esquerda, que costuma ocupar essas entidades e tem um fraco por greves estudantis, ocupações e discussões sobre conjuntura política e a situação da classe trabalhadora nacional e internacional. De modo geral, os grupos de direita dizem não querer debater política no campus. Querem encontrar soluções para os problemas das universidades e pensar em alternativas para financiar o ensino e a pesquisa num tempo em que o orçamento universitário anda cada vez mais apertado. Para atingir seus objetivos, eles, obviamente, seguem a cartilha liberal. Sugerem parcerias com a iniciativa privada e — surpresa! — preferem não se associar a Bolsonaro. Costa, da Aliança, não declarou voto, mas contou que, entre seus companheiros liberais, “teve membro que votou no Bolsonaro e membro que votou no Haddad, mas a maioria anulou”.


Com várias vitórias eleitorais, contatos na política e 89 membros entre alunos e ex-alunos da UnB, a Aliança serve de inspiração para universitários direitistas país afora. A chapa brasiliense nasceu em 2008 e reuniu alunos descontentes com os métodos do movimento estudantil à esquerda, que ocupava a reitoria da UnB para pressionar a renúncia do reitor, Timothy Mulholland, acusado de improbidade administrativa. “Participei de minha primeira reunião da Aliança em 2011. Éramos eu e mais três pessoas. Nem acreditávamos que podíamos ganhar, mas queríamos ser uma voz diferente das demais”, contou o engenheiro civil Pedro Ivo, ex-aluno da UnB. Ivo foi eleito ao DCE em 2011, mas não teve a mesma sorte na corrida por uma vaga na Câmara Legislativa do Distrito Federal neste ano.


O pragmatismo da Aliança rendeu o apelido de “chapa do papel higiênico”. Os direitistas preferiam discutir infraestrutura universitária em vez de emancipação da classe trabalhadora. “A esquerda usa o espaço de representação dos estudantes para defender pautas externas à universidade”, disse Ivo. “Em minha época, eles falavam muito da extradição do Cesare Battisti (militante comunista italiano acusado de assassinatos políticos exilado no Brasil) e dos índios caiouás e não se preocupavam com o básico, que é papel higiênico e sabonete na universidade. A missão do DCE é falar de papel higiênico e sabonete antes de falar de Cesare Battisti. Para ser bem honesto, a gente gosta desse apelido.”



No poder, a “chapa do papel higiênico” se aproximou da iniciativa privada e da burocracia universitária. Nada de convocar os alunos para atos em frente à reitoria, nada de bandeiras de partidos. Graças a parcerias com empresas, o DCE liberal espalhou bicicletários pela UnB e instalou toldos em todos os pontos de ônibus, para proteger os alunos do sol inclemente do cerrado. Também inaugurou um ponto do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) no campus para facilitar o acesso dos estudantes a oportunidades de estágio. Uma das medidas mais controversas foi a parceria com a PM, que passou a fazer rondas na UnB — a esquerda universitária resiste até hoje à presença policial nos campi. Numa tentativa de conciliação, a Aliança conseguiu que a PM destacasse, para patrulhar o campus, policiais que fossem ex-alunos e conhecessem a rotina da UnB. Os liberais também investiram no que chamaram de “Democracia 2.0”: consultas virtuais à comunidade universitária, que era convidada a votar “Sim” ou “Não” sobre temas como cotas ou greve estudantil. A Aliança enfrentou oposição cerrada da esquerda, que sempre prefere assembleias a consultas virtuais e se opõe à aproximação da universidade com o setor privado. “Investimento privado na universidade é parecido com investimento privado em campanhas políticas, que tanto criticávamos. Quem paga a banda escolhe a música que ela vai tocar. Isso pode ferir a autonomia universitária de produção de conhecimento”, disse Ingrid Martins, que estudou Direito na UnB e integrou a chapa Unidade para Resistir, derrotada pela Aliança.


O que era uma esquisitice de Brasília logo se espalhou por outros lugares. Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), a UFPR Livre se organizou em 2016 para se contrapor às ocupações de centenas de universidades e colégios secundários em protesto à PEC do Teto dos Gastos Públicos. Quem quiser participar da UFPR Livre precisa preencher um formulário on-line com nome, número de WhatsApp e perfil no Facebook, que será avaliado para conferir se a pessoa de fato está alinhada à cartilha liberal. Depois, é marcada uma entrevista por telefone ou Skype, em que o candidato precisa responder se é liberal, conservador ou libertário, contar um pouco de suas leituras e como pretende contribuir para a UFPR Livre. “Queremos disseminar ideias liberais no ambiente acadêmico, valores como liberdade individual, defesa da propriedade privada e do livre mercado, empreendedorismo e limitação do Estado”, disse Bruno Kaiser, estudante de ciências contábeis, fundador do grupo e candidato derrotado a deputado federal pelo Novo nas últimas eleições.


Desde que surgiram o MBL e as chapas universitárias antiesquerdistas, especula-se muito sobre o papel que organizações internacionais e institutos liberais tiveram na organização da nova direita brasileira. O Instituto Mises Brasil, por exemplo, ajudou a ampliar a biblioteca da direita ao editar as obras de economistas ultraliberais que hoje estampam camisetas de jovens conservadores. A organização americana Estudantes pela Liberdade (SFL, na sigla em inglês), que atua no Brasil desde 2012, funciona como uma rede que congrega grupos estudantis liberais dispersos pelo país. A SFL conta com 1.037 “líderes” em todas as unidades federativas. Eles recebem formação por meio de eventos, palestras e cursos on-line.

O filósofo Luiz Felipe Pondé, ardoroso defensor de uma direita mais festiva, afirmou que erros da esquerda universitária — o “autoritarismo”, em especial — contribuíram para o avanço da direita nos campi. “Antes, os jovens liberais só queriam discutir economia e fazer dinheiro no mercado financeiro. Economia é uma ciência triste. Para ganhar adeptos, eles precisam saber discutir literatura, música e cinema”, disse.




32 visualizações0 comentário

publicações relacionadas